Ganhei no grito

André Henning, a voz da Liga dos Campeões e, agora, do Brasileirão, conta como realizou o sonho de criança

Chico Silva e Felipe Pereira Do UOL, em São Paulo
Leo Martins/UOL

"Um dia eu me vi no avião com o Zico sentado numa cadeira duas fileiras à frente da minha. No meio do voo, ele levantou falando: 'André, consegui que a moça aqui do lado trocasse. Vem aqui sentar comigo'. Em choque e maravilhado, eu pensei: 'Caraca, André! O Zico está rearrumando posições no avião para a gente sentar juntos e poder voltar lado a lado de uma cobertura'.

Eu sou um privilegiado, cara! Trabalho com o que eu sempre sonhei na vida. E realizar um sonho de criança é para poucos. Ainda mais um sonho tão difícil como viajar a Madri, Barcelona, Londres para transmitir os jogos que o mundo inteiro quer assistir. Eu consegui ser narrador de uma emissora que tem os direitos de várias competições e manda equipes para fazer as partidas in loco.

Então, é muita coisa. Todos os dias eu repito para mim mesmo que sou um privilegiado."

André Henning é o principal narrador do Esporte Interativo, canal que transmite a Liga dos Campeões com exclusividade desde 2015. A partir de domingo, ele também será a voz da emissora no Campeonato Brasileiro.

"Não sou só grito. Mas minha narração é um tom acima"

Treinando desde cedo

André Henning é narrador desde que se entende por gente. Filho do ex-correspondente internacional da Globo Hermano Henning, ele morava na Bahia e fazia o pai ir ao estádio aos domingos para sentar nas cabines de transmissão da TV Aratu. O renomado jornalista era o único ouvinte da narração do menino. Em casa, era a mesma coisa. Televisão ligada e o menino se divertindo comandando a transmissão da partida.

"Eu era um grande narrador quando criança porque eu narrava para rádio e pra TV. No primeiro tempo, na rádio, narrava como Osmar Santos. O segundo tempo era estilo TV, como Galvão Bueno. Os dois são minhas referências e eu imitava. Não tem jeito, no começo você imita".

Quase todo dia, Hermano Henning era acompanhado pelo filho no trabalho. Todo mundo conhecia o Andrezinho e o narrador diz que não sabe como o pai e os companheiros de redação o aguentavam. Para dar sossego durante 90 minutos, o menino era colocado numa sala em frente a um monitor.

"Meu pai dizia para botarem um Bahia e Catuense e me trancava lá dentro. Eu ficava lá narrando, achando que estava sozinho no meu mundo. Só que as vezes o cara abria o áudio para a redação ouvir. Davam risada e uns até passavam dando tchauzinho".

O narrador foi saber desta história anos mais tarde, quando era adulto e foi contratado pela TV Aratu.

Numa semifinal da Copa do Nordeste, o Bahia estava jogando e me veio na cabeça que era a mesma Fonte Nova para onde eu fazia o meu pai me levar quando tinha sete anos para ficar narrando na cabine da TV Aratu. Mais de trinta anos depois, eu estava lá profissionalmente. Tive que parar e respirar fundo para poder continuar a transmissão

Sobre a emoção de ser um narrador

André recusa rótulo de voz da Liga dos Campeões

"A gente aqui do Esporte Interativo gosta do som da torcida lá em cima. Nesses estádios onde as torcidas são fanáticas é ótimo. Eu fui fazer um jogo no Celtic Park, em Glasgow, e foi ótimo. Você vai fazer um jogo lá no Westfalen, casa do Borussia Dortmund, e sabe que será bom. Então eu gosto desses jogos em que o torcedor vem junto", explica Henning.

André Henning comemora por fazer os principais jogos da Liga dos Campeões, além dos mais emocionantes. Mas desconversa quando falam que ele é a voz da competição no Brasil. Justifica que divide o microfone do Esporte Interativo com outros narradores.

"Eu me acho uma das vozes", diz. "Não tenho esta vaidade. Por um acaso, hoje sou o cara que tem feito as finais, que tem feito mais jogos in loco. Mas não tem essa de voz da Liga dos Campeões. Não posso chegar e falar que eu sou a voz da Champions".

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Levantando o caneco

No meio dos jornalistas esportivos, espalhou-se a história de que no dia em que o Esporte Interativo ganhou os direitos da Liga dos Campeões André Henning foi ao Ponto Chic, tradicional lanchonete de São Paulo, e entornou seis cervejas. Ele corrige o boato. "Acho que não foi só isso. Acho que foi mais".

Nada que deixe a história menos saborosa. André Henning lembra que a sede da empresa ficava no Rio de Janeiro e que assuntos desta natureza são de conhecimento apenas da diretoria. O narrador ficou sabendo que o Esporte Interativo transmitiria a Liga dos Campeões somente quando o anúncio estava sendo feito para toda a equipe.

Colocaram-no no viva-voz e havia tanto barulho de gente comemorando que ele não entendeu direito. A dúvida foi extinta quando alguém pegou o telefone e explicou. "Perguntei se entendi errado ou se a gente realmente ganhou a Liga dos Campeões. Falaram que foi isso mesmo e o resto da história a gente já sabe".

André Henning diz que a promessa era elevar o sarrafo nas coberturas e afirma que isto foi cumprido. Há repórteres espalhados pela Europa trazendo notícias rodada a rodada e oitos jogos sendo transmitidos simultaneamente no aplicativo EI Plus. A cobertura da final conta com estrutura de Copa do Mundo com 30 profissionais enviados.

Jornalismo de guerrilha

André Henning era repórter de ponta na Rádio Transamérica, em São Paulo. Prestigiado, era escalado para cobrir Olimpíada e Copa do Mundo. Também era um narrador em busca de espaço. Mas ele resolveu apostar em outra frente e aceitou a proposta de ir para o Esporte Interativo em 2007 ajudar a criar um canal esportivo do zero. Foi uma mistura de loucura com coragem.

Concordou em mudar para o Rio de Janeiro com mulher e filho pequeno. E ganhando menos. Junto com outros abnegados, trabalhou para fazer crescer uma emissora que engatinhava.

"Era um negócio de maluco. No primeiro dia do Esporte Interativo, os sócios da empresa, vice-presidente, presidente, os diretores estavam com a mão na massa. Um estava no GC (pessoa que escreve os textos que aparecem no vídeo); o outro soltando VT; um estava na porta recebendo pizza para os funcionários; e o outro estava ajudando na câmera. Todo mundo estava trabalhando, ralando, e foi assim durante muito tempo, muito tempo".

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Expectativa alta para narrar o Brasileirão

O Esporte Interativo fechou com sete clubes para a transmissão de suas partidas no Campeonato Brasileiro, que começa no próximo final de semana. André Henning afirma que está com uma expectativa alta para a competição, mas já vai adiantando que não será a voz do Brasileirão. "Uma das vozes", apressa-se em dizer.

Corintiano declarado, ele será o narrador principal da emissora que tem a exclusividade dos jogos do Palmeiras, clube que não fechou com o Grupo Globo. André Henning diz que deixa a paixão clubística de lado quando está com o microfone na mão e que sempre torce para os jogos que transmite serem os mais importantes e mais empolgantes.

"Eu mergulho na narração de um jogo e só penso no cara que está do lado de lá. O torcedor do Palmeiras, o torcedor do Internacional, o torcedor do Santos, o torcedor de seja lá quem for. Eu quero que o título saia no jogo que eu estiver narrando".

Uma frase resume a linha de raciocínio dele. "Eu quero que o jogo que eu esteja narrando seja o que vai ficar na história".

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Grito de gol diferente

Recentemente, uma mudança na estrutura do Grupo Turner, o dono do Esporte Interativo, fez com que os jogos trocassem de casa. O canal em que os telespectadores acompanharam a Liga dos Campeões até ano passado deixou de existir e a competição europeia migrou para dois canais de entretenimento, a TNT e o Space. O Brasileirão também será transmitido nesses canais - além do aplicativo EI Plus.

"A transmissão é a mesma, com o nosso jeito. Então não há diferença nenhuma, muito pelo contrário. Agora temos canais muito mais fortes. A TNT chega em mais residências do que chegava o Esporte Interativo, então, para o torcedor foi melhor a gente levar as transmissões para a TNT. No fundo, o que interessa é isso".

André Henning, ressalta, também, que é diferente quando narra gols de times brasileiros. Ele cruza com as pessoas que nasceram torcedores das equipes do Brasileirão, algo que não acontece nas ocasiões em que times europeus jogam. "O cara te encontra na rua e é diferente".

"A minha relação, por exemplo, com o torcedor do Bahia tem muito disso. Eu saio no carnaval e os caras vem me abraçar: 'Gol do Bahia! Bora Bahia!' É legal você narrar muito gol do Messi, mas quando é o time do cara você fica marcado na vida do torcedor. Estou com vontade que comece logo esse Campeonato Brasileiro".

Carta ao filho sobre o Corinthians

A vida estava dura para André Henning no primeiro ano no Rio de Janeiro. Tinha se separado e a mulher voltou para São Paulo com o filho. Foi neste contexto que assistiu o Corinthians ser rebaixado no estádio Olímpico, em Porto Alegre.

"Quando o Corinthians caiu, quando acabou o jogo, eu...Putz, dei aquela derrubada. Mas pensei: 'Agora nós vamos subir juntos'. E aí reuni forças para escrever uma carta para meu filho, depois que o Corinthians subiu... Mas eu senti bastante a queda".

Na carta, André Henning fala da paixão pelo time e o amor pelo filho. "Lucas, nós voltamos! E, por uma dessas coincidências que só o nosso Santo Guerreiro explica, acabei de ligar para sua mãe (que carrega o sangue corintiano também, mas que não liga muito) para pedir que lhe vestisse com a camisa do Timão e adivinhe! Você já estava envergando o nosso manto sagrado!!! Mesmo sem ela ter a menor ideia de que o nosso Coringão estava voltando, o inconsciente alvinegro falou mais alto", diz um trecho da carta.

André ressalta que estes dias de paixão pelo clube são passado. Ele lembra que já atravessou o país e o mundo para apoiar o Corinthians, mas que hoje em dia não faz mais este tipo de aventura. "Óbvio que torço, vejo jogo grande, mas não sofro mais".

"Sobrenome Henning já pesou muito"

Conversa com Galvão aos 12 anos

Ser filho de um correspondente internacional da Globo e repórter que cobria a Alemanha em Copas preocupou André Henning, mas também proporcionou alegrias. Fã de Galvão Bueno desde a primeira infância, ele torcia para que na Copa de 1986, no México, o narrador substituísse Luciano do Valle como principal voz da emissora. Isto não aconteceu, mas houve uma surpresa melhor.

"Meu pai foi cobrir um jogo, me telefonou e botou o Galvão para falar comigo. Foi o dia mais feliz da minha vida. Eu tinha 12 anos de idade, em Salvador, sentado em casa, narrando sozinho os jogos da Copa do Mundo, que eu anotava no meu caderninho. Toca o meu telefone, o Galvão Bueno falando comigo."

André Henning nunca contou esta história para Galvão Bueno. E não foi por falta de oportunidade. Como era repórter de rádio que cobria seleção e conhecia muita gente na Globo por causa da passagem do pai pela emissora, jantava com o pessoal do canal de televisão nas viagens da equipe do Brasil - incluindo Galvão.

"Na época, eu não tive coragem. Hoje, também não sei se eu tenho coragem. Mas se ele der abertura... Eu não gosto de ficar lá tietando, mas ia pedir foto comigo e perguntaria se poderia colocar no Instagram".

Leo Martins/UOL

No meio de briga no Parque Antártica

Além de conviver com o grande ídolo da infância, a carreira de repórter colocou André Henning numa situação inusitada. Palmeiras e Fluminense jogavam pelo Brasileirão Paulo de 2001 no antigo Parque Antártica e Fernando Diniz se estranharam em campo.

"Eu cobria o Palmeiras e o Galeano estava saindo [de campo]. A gente fazia entrevista antes dos jogadores descerem para o túnel. E aí ele está dando entrevista, só que atrás eu estou vendo alguém vindo para dar nele. Eles tinham discutido, acho que tinham sido expulsos. E eu estou com o microfone e aviso: Galha, atrás de você, atrás de você."

As fotos da época registraram Jorginho tentando acabar com a briga e André Henning no meio do entreveiro. Ele se afastou um pouco para evitar ser atingido na briga, mas não esqueceu do papel de repórter. "Avisei para ele ao menos ter tempo de virar e poder se defender. Mas ele não estava entendendo. E o pau quebrou comigo ali no meio porque estava entrevistando. Fiquei me protegendo e tentando pegar o áudio".

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Aposentadoria embaixo de um coqueiro

A carreira de André Henning está no ápice. Ele nega, mas sua voz é associada a Liga dos Campeões. A partir deste final de semana, será o narrador do Campeonato Brasileiro também, se tornando ainda mais íntimo do telespectador. Mas o plano não é se eternizar neste posto.

"Confesso que é algo que não quero para a minha vida toda. Vai chegar uma hora que vai atingir um limite. Acho que uma hora você quer uma vida um pouco mais normal. Mas vai demorar muito ainda".

Não poder marcar com antecedência o aniversário do filho, ter os planos mudados a qualquer momento são parte do cotidiano de André Henning nos últimos 25 anos. O narrador não coloca data para aposentadoria, mas ressalta que todo mundo tem prazo de validade. Ele já sabe o que deseja fazer depois que abandonar os microfones.

"Quero montar um restaurantezinho na Praia do Forte, em Salvador, e ficar tocando violão debaixo de um coqueiro e conversando com meus amigos".

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